O que fundamenta o nosso apreço por determinados espaços cotidianos, como um mero café do nosso bairro, ou o canto de uma praça que elegemos como ponto de encontro?

Geralmente não temos uma justificação lógica ou racional para explicar o motivo dessa predileção. Esta é uma decisão tomada inconscientemente que resulta de um conjunto de fatores, seja pela localização conveniente, a funcionalidade da oferta, memórias associadas, ou simplesmente por ter uma aparência convidativa. O facto é que esta conjuntura resulta num importante impulsionador para a formação de vínculos emocionais entre pessoas e lugares.

Pode-se afirmar que a vitalidade de um lugar se mede pela forma como este é vivido. Mas, para que ele se torne atrativo, é importante fazer do espaço público um convite a essa ocupação e convivência.

No entanto, o planeamento urbano muitas vezes negligenciou esta dimensão humana durante as últimas décadas. A priorização do automóvel foi tomando cada vez mais posse do espaço que deveria ser reservado ao cidadão, e a experiência tida nestes espaços públicos foi refletindo a qualidade das suas cidades.

Esta dinâmica torna-se clara ao analisarmos as nossas próprias referências de excelência urbana, uma vez que o mais certo é a falta, e até ausência, de associações positivas a lugares ocupados maioritariamente por automóveis. Ao pensar num centro revitalizado na Escandinávia, as ruas estreitas de uma cidade tradicional japonesa, ou uma pequena via situada em França, verifica-se uma premissa de sucesso comum: a inexistência de tráfego. Não obstante, mais do que retirar a presença dos veículos, é importante fomentar a ‘vida’ nos espaços públicos.

É neste contexto que surge o “placemaking”. Mais do que uma técnica, é um debate profundo sobre o modelo de desenvolvimento e a forma como ambicionamos viver nas nossas cidades. Na sua essência, define-se como uma filosofia de transformação: um processo de ativação de lugares alicerçado na articulação estratégica da sociedade.

Mas o que é Placemaking?

A primeira voz a manifestar-se contra a escala desumana adotada nos grandes centros urbanos foi a jornalista e escritora norte-americana Jane Jacobs em 1961 (isso mesmo, 1961!), na sua obra “Morte e vida das grandes cidades”. A autora manifestou a sua crítica à matriz urbana modernista, destacando a segregação funcional e a priorização do automóvel como fatores determinantes para a inércia dos espaços públicos.

Na Bloom Consulting, trabalhamos com a metodologia proprietária de Placemaking.ID®, que sobrepõe a identidade do lugar e universo de atuação de Place Branding à qualificação dos espaços públicos, numa atuação que, contrariamente ao Placemaking convencional que frequentemente se dedica a ações de menor escala, opera com soluções de cariz estratégico. Esta visão macro orienta a intervenção detalhada, assegurando que as ações locais não apenas comuniquem a essência do lugar, mas contribuam para uma vitalidade urbana duradoura, superando a natureza efémera das ocupações tradicionais.

Entre o nosso portfólio de ferramentas metodológicas, como as matrizes de ocupação e vibração dos espaços públicos e o índice de percepção do lugar, sublinhamos a estruturação tripartida da nossa análise territorial: Hardware, Software e Peopleware.

Enquanto o Hardware é composto pelos elementos tangíveis e imóveis como arquitetura e geografia do lugar em questão, o Software corresponde ao que acontece efetivamente no lugar (as suas atividades e programação), e, por fim, o Peopleware, a dimensão mais importante de todas, centra-se na comunidade (visitantes e residentes), com foco na gestão estratégica dos ativos intangíveis, como a identidade cultural e o capital social. 

Após a compreensão do Peopleware, sugerimos o Software, para só então considerarmos o Hardware. Identidade e atividades detêm uma maior relevância do que edificações!

Este processo é aplicável não só na escala dos empreendimentos imobiliários, como em bairros planeados ou cidades novas, nos quais estes passam a ser interpretados como espaços inseridos no tecido urbano, influenciando e sendo influenciados pelo seu envolvente sem se comportarem como estruturas isoladas da comunidade e da cidade. As cidades, por sua vez, podem qualificar os espaços públicos e a experiência urbana, reforçando a sua ideia central e melhorando a experiência do utilizador, residente ou visitante.

Ao criar um lugar, que é um espaço dotado de significado pelas pessoas, é essencial entender a realidade daquelas que o habitam, e, assim, compreender o seu caráter único. Não existe Placemaking replicável, uma vez que as pessoas são distintas e não possuem as mesmas aspirações e comportamentos, o que constitui a singularidade de cada projeto.

Placemaking é interagir com as pessoas antes, durante e depois, é criar laços.

Mas o que torna um lugar vibrante?

Embora qualquer pessoa possa intuir facilmente o que é um lugar vibrante, tornou-se necessário criar parâmetros mínimos que ajudassem os gestores públicos e privados, a compreender e avaliar a “vida” dos locais. Na Bloom Consulting, desenvolvemos a fórmula que define um lugar vibrante da seguinte forma:

LUGAR VIBRANTE = PESSOAS + SIGNIFICADO + ATIVIDADES

Neste tripé conceptual, todos os elementos estão diretamente interligados e a supressão de qualquer um deles resulta na dissolução da equação. Não existe significado sem pessoas (que conferem sentido aos lugares), da mesma forma que não teremos pessoas num lugar que não apresente um programa mínimo de atividades, nem atividades sem pessoas num determinado local.

Depreende-se que um lugar vibrante envolve substancialmente mais o Peopleware e o Software do que o Hardware, que serve, frequentemente, apenas como suporte para as atividades.

Um lugar vibrante é, necessariamente, utilizado pela comunidade, porque os indivíduos identificam-se com o local uma vez que este possui significado, e utilizam-no porque existe um conjunto de atividades possíveis alinhado a esse propósito. A apropriação dos lugares pela comunidade constitui a métrica de sucesso mais relevante de um projeto de Placemaking. Qualquer ideia, por mais excelente que aparente ser, apenas se tornará um lugar vibrante se for validada pela população. Por isso, é imperativo ressaltar que, em última análise:

Placemaking é sobre criar lugares vibrantes para as pessoas, com as pessoas.

Filipe Roquette
Filipe tem colaborado com a Bloom Consulting em vários projetos desde 2008 e, em 2013, tornou-se o Diretor Geral da Bloom Consulting Portugal.